A pontuação Klout
Em reportagem da revista Wired
de maio tomei contato com a existência do Klout. O Klout é um site que, a partir da sua autorização
para que possa acessar suas contas de redes sociais (Facebook,
Twitter etc), te dá uma pontuação de 1 a 100. Essa pontuação significaria o
quanto você é influente na rede, o quanto seus posts, tweets e quaisquer
manifestações são compartilhados, curtidos, replicados e de que forma o são –
se dentre um grupo pequeno e especializado ou se fogem ao seu círculo, por
exemplo. Na análise do seu Klout, o
mecanismo digital ainda indica o número de pessoas que você influencia qual a
força da sua opinião.
As conseqüências disso são perturbadoras. Nos EUA empresas
já buscam profissionais com base no seu Klout e marcas visam indivíduos com
altas pontuações para oferecer gratuidades e promoções. E isso é facilitado
pela plataforma do site, que anuncia que enquanto menos da metade das pessoas
se dizem influenciadas por publicidade, quase a totalidade delas interessam-se
por sugestões de amigos.
Mark
Schaefer, professor de marketing e autor do livro “Return of Influence” declarou à Wired:
“esta é a democratização da influência”. “De repente pessoais normais podem cavar seu próprio nicho criando
conteúdo que se replique rapidamente por uma rede. (…) Para marcas isso é
um estouro. É a primeira vez que nós conseguimos medir isso”.
Democratização da influência?
Essa afirmação espanta e tem um certo poder. Dizer que tal
índice torna visível possíveis pólos de influência antes não reconhecidos como tal tem um quê da idéia de que bastaria produzir conteúdo de qualidade para
se tornar uma celebridade – e ser reconhecido por isso.
Mas tal declaração também tem um quê de falácia. Em primeiro
lugar porque a influência contabilizada é a influência da rede – e só dela.
Quantas pessoas fora da web detém muito mais poder de convencimento e
ascendência sobre nossas opiniões do que internautas hiperconectados que
seguimos e lemos? Professores, pais, jornalistas. Até blogueiro nem tão
conectados. Diretores de empresas. Dirigentes de partidos políticos.
Por este índice o Obama tem menos influência que alguns
blogueiros, por exemplo. Mas é algo a se lembrar que influência sobre conteúdo e
poder não necessariamente andam juntos.
Uma experiência um tanto
assustadora
Decidi testar o Klout e deixei com que a plataforma logasse
nas minhas contas do Twitter e do Facebook para gerar uma pontuação. Não posso
deixar de dizer que a experiência é um tanto bizarra.
Isso porque não deixa de ser estranho ver seu nome atrelado
a um número, com gráficos e índices que podem ser justapostos e comparados com
os índices de seus amigos, colegas e conhecidos. A experiência na Internet se recoloca da estrutura
de identidade e compartilhamento do Faceboook, da replicação frenética do
Twitter, ou da colaboração do Tumblr ou do Youtube e se transforma em algo competitivo,
individualista e egocêntrico.
Quase que instantaneamente ocorreu comigo um sentimento
bastante parecido com o que ocorreu com o repórter da Wired Seth Stevenson – “como eu faço para subir nesse score?”. A vida vira quase um jogo, um
RPG, no qual você, um personagem construído de você mesmo, vai ganhando níveis,
experiência.
Aqueles que considerarem seu índice alto provavelmente darão a ele algum valor. Aqueles que considerarem baixo acharão problemas no algoritmo ou dirão que ele pouco mede. O sentimento é um misto da divulgação pública dos resultados de uma prova com aquele consenso tácito do primário a respeito da popularidade dos coleguinhas. Pode ser isso, voltamos à 3ª série.
Se mede alguma coisa? Não sei, mas definitivamente perturba. Não me admiraria de termos viciados em Klout por aí daqui a pouco.
A década no espelho
Talvez o Klout só tenha criado um algoritmo para explicitar
ou refletir o espírito de nossa década – de que a rede entrou de vez como
essencial para nos relacionarmos, e que nossos perfis e máscaras virtuais nada
mais são do que bons anúncios. Como diz a máxima recente dos serviços
gratuitos, “se é gratuito o produto provavelmente é você”, a pontuação Klout
possivelmente só torna gráfica essa realidade.
É mais um mecanismo para
cobrarmos de nós mesmos uma marketagem de Duda Mendonça a preço de nossa dignidade,
intimidade e liberdade. E agora a competição é explícita em números. Acho que incomoda, no mínimo. Ou você se sente confortável de estar sendo rankeado –
e avaliado por isso – a todo momento?